Entrevista
Um gênio da xilogravuraXilogravuras são ilustrações populares obtidas por gravuras talhadas em madeira ou borracha, muito difundidas no Nordeste e sempre associadas à Literatura de Cordel, uma vez que a partir do final do século XIX passaram a ser utilizadas na produção das capas dos folhetos.A origem da xilogravura nordestina é desconhecida.Acredita-se que os missionários portugueses tenham ensinado sua técnica aos índios, como atividade extra-catequese, partindo do princípio religioso que defende a necessidade de ocupar as mãos para que a mente não fique sujeita aos maus pensamentos.Dentre os grandes nomes da xilogravura nordestina, temos Dila- José Soares da Silva.
Com uma incrível imaginação, Seu Dila, como é conhecido, consegue recriar passagens da história do cangaço e até nos leva a crer que Lampião ainda está vivo,morando no Rio de Janeiro. Sua casa, em Caruaru, transformou-se num ponto de atração turística da cidade.Uma escada de mão apertada dá acesso ao seu local de trabalho: UM primeiro andar minúsculo com imagens de santos, fotos de família e reportagens sobre a vida e o trabalho dele.Nesta entrevista, Seu Dila fala do trabalho com a xilogravura, de ter sido escolhido com uma das “Lendas Vivas de Pernambuco” e, claro, de Lampião.
Anderson Daivis-Quando o senhor fez o seu primeiro trabalho com xilogravura?
Seu Dila-Na verdade eu não lembro do primeiro, mascomecei fazendo folhetos sobre o vangaço.Jà ouvi histórias que dizem que fiz uma xilogravura para ilustrar um folheto do poeta Francisco Sales Areda quando tinha sete anos, mas não é verdade.Erram até minha data de nascimento!Dizem que nasci em Surubim,Pernambuco, mas eu nasci em Pirauá, na Paraíba.
Anderson Daivis-Porque o senhor veio para Caruaru?
Seu Dila-Em 1952,vim ajudar meu pai com o gado.Comecei a fazer e vender meus folhetos aqui e deu certo.Em 1963 comprei seis impressoras [duas a motor e quatro manuais]e coloquei anúncio no Jornal Vanguarda,dizendo que eu fazia xilogravura e carimbos.Até hoje imprimo os folhetos na impressora manual[ele vendeu as outra no final dos anos 60].
Anderson Daivis-E quando surgiu a idéia de usar a borrach para fazer a xilogravura?
Seu Dila-Aqui em Caruaru é muito difícil encontrar a madeira [Iburana] que serve para o trabalho.Então tive a idéia de usar outro material. Fui numa loja dos Guararapes[bairro comercial de Caruaru] e encontrei placas de borracha que daria o mesmo efeito na impressão.O engraçado é que outros xilogravuristas tentam trabalhar com a borracha e não conseguem (risos)
Anderson Daivis-Mas a técnica é a mesma?
Seu Dila-É, talho a borracha com uma lâmina.Só o nome que ficou conhecido com linogravura.
Anderson Daivis-Por que as aventura de Lampião são tão presentes em seus folhetos?
Seu Dila-Porque ele ainda está vivo.Mora no Rio de Janeiro há vinte anos.Ele teve onze imitadores,três deles cegos de um olho.Mas Lampião não é cego,é vesgo.E não é ruim, como todo mundo diz.Quando tinha doze anos se tornou capitão e depois é que virou cangaceiro.Ele é um justiceiro.
Anderson Daivis-O seu nome de batismo é José Soares da Silva.Por que há folhetos seus como “Dila Ferreira”, “Dila Soares” e até “Antônio Ferreira d’Padua Silva Dila”?
Seu Dila-Uma vez, um turista europeu pediu para ver meus folhetos.Não quis levar porque já tinha dois escritos por mim, e era o que estava acontecendo com os outros escritores.Eles [os escritores] deciciram narrar fatos cotidianos.Eu resolvi mudar o meu nome nos cordeis.As pessoas compravam pensando que eram de autores diferentes.
Anderson Daivis-Como o senhor se sente como uma das “Lendas Vivas De Pernambuco”?
Seu Dila-Eu não esperava ser escolhido,mas é bom.Esse dinheiro [uma pensão vitalícia de R$ 750]vai me ajudar a continuar a fazer os folhetos e pagar as dívidas. (risos)
Anderson Daivis-O senhor acha que a xilogravura e o cordel estão sendo valorizados atualmente em Caruaru?
Seu Dila-Não.Quem compra é apenas turista,estudante ou jornalista.Antigamente eu vendia maletas de folheto.Hoje ninguém vende muito.
Anderson Daivis-O senhor tem algum projeto atualmente?
Seu Dila- De vez em quando os colégios me chamam para ensinar a fazer xilogravura,mas projetos em sí,não.

1 Comments:
At quinta-feira, agosto 31, 2006 9:18:00 PM,
Mariana Mesquita said…
Adoro Dila! Você tem o contato dele?
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